“Compro, logo existo”

“Compro, logo existo”

Discente: Marina Canevazzi – Curso (Extensivo)

Proposta – Unesp: “Compro, logo existo” (2019)

Prof. Lincoln Carneiro

A existência da Barata

Na música “A Barata”, do desenho infantil Galinha Pintadinha, o inseto tende a mentir sobre suas posses, uma vez que desdenham da falta de acesso a um anel de formatura, uma saia de babados e até mesmo uma viagem de avião. Tais chacotas descaracterizam o artrópode quanto às suas reais qualidades, induzindo-o a inferiorizar-se ao ponto de recorrer às máscaras sociais nas quais possui poder aquisitivo. Nesse sentido, a supervalorização do consumo direciona o corpo social atual para um “complexo de Dona Baratinha”?

Outrossim, desde o século XIX, José de Alencar mostrava, no romance Senhora, a diferença no tratamento de uma mesma personagem entre o momento no qual encontra-se na pobreza e, depois, quando se inclui na alta sociedade. Tal contraste ilustra a importância do poder de compra na contemporaneidade, na qual as posses caracterizam o cidadão.

Ademais, “ter” e “ser” confundem-se porquanto bens materiais são relacionados a sentimentos e emoções do indivíduo, com o intuito de aumentar o consumo. Elucidando, a venda de sentimentos constrói-se na mídia de uma forma cada vez mais atrelada aos produtos, como por exemplo, a Coca-Cola e os famosos comerciais de margarina, os quais, junto aos alimentos, vendem também a ideia de felicidade e harmonia familiar.

Além disso, tais técnicas de marketing frisam a importância das compras para o alcance não apenas de prestígio, como também de elementos a satisfazer o próprio ego e carências emocionais do indivíduo. Nesse sentido, o poder aquisitivo torna-se uma qualidade inerente e essencial para que o cidadão seja devidamente respeitado perante a sociedade.

Assim, a vida torna-se mais dependente dos bens e do consumo padrão do cidadão e menos de suas próprias características (autonomia e criticidade) e maneiras de lidar com sua vida pessoal. Nesse ínterim, a solidão do indivíduo o direciona a escolhas duvidáveis para que seja aceito, assim como a barata. Dessa forma, a Grande Liquidação, de José Paulo Paes, ameaça tornar-se um inseticida da individualidade, a qual parece ser dispensável para a existência no mundo capitalista.

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