Relato 108° de isolamento

Relato 108° de isolamento

Yandra Graciano Paniagua

O vírus que primeiro se manifestou na China, não era assim tão perigoso quando próximo de nós não estava. De notícia em notícia, pensei que seria contido; não foi o que aconteceu. Durante os primeiros 4[quatro] meses de aula no ensino médio, em Abril de 2020, no décimo sétimo dia, após a aula, deveríamos permanecer em casa, para mim, enquanto saía pelo portão do colégio, não conseguia imaginar a tamanha gravidade à última visão de aglomeração na escola.

Ao entrar no carro contei sobre o ocorrido, já era possível assimilar com as notícias do dia anterior- o vírus se aproximava e aqui já estava. O que seria uma semana em casa, tornaram-se 6[seis] meses, até agora. A comunhão calorosa com os irmãos, também foi cortada. Amar ao próximo ao atender suas reais necessidades, incluía também, estar distante para preservar sua vida. Máscaras e álcool em gel se tornaram as armas, porém, não um escudo definitivo. Computador, fone, e apps online- prontos para a aula. Distantes, mas conectados.

Quando meus avós saíam, a preocupação batia à porta do coração: “Vô, pegou a máscara?!”,”Lavou as mãos? Eu não vi, hein!”. O cansaço tomava meu ser. Era como lutar com o vento e nunca conseguir certeiramente acertá-lo, não era um bom combate; o danadinho em um pequeno lugarzinho poderia infectar todo o nosso corpo. Como reagiríamos?! Embora houvessem aqueles pertencentes ao chamado “grupo de risco”, todos corriam perigo.

Nossas esperanças em uma vacina, pareciam como soldados quando recebiam uma expectativa de socorro, e não desistiam de lutar. Não era errado buscar por uma solução; errado, era minha motivação. Não poderia olhar para história, principalmente diante do momento presente, e me esquecer que Deus era e é o Senhor da história e a desenvolve segundo o seu propósito estabelecido- e o continuava fazendo.

Justificando desculpas na falta de descanso e organização, e tentando separar ciência e fé, jamais poderiam construir minha vida e cosmovisão- mesmo a incredulidade querendo bater à porta. O problema de meu coração, não foi resolvido por mim e seu desenvolvimento cotidiano muito menos- verdade, continuamente, relembrada ao longo desse tempo.

Brigas políticas iniciaram- não conseguia compreender; entristecia-me acompanhar a desenfreada mídia computar as mortes advindas da doença. Assimilava o desenrolar com séries “apocalípticas- zumbis”, mas também achava que logo passaríamos pelas medidas protetivas.

O mundo traz profundas marcas da queda, que se manifestam, inclusive, com doenças.

As mortes mostraram a necessidade de pesquisa e empenho para conter a enfermidade, não somente na área de saúde, mas em uma unidade. O tempo em casa me fez ver cada vez mais as verdades bíblicas. A importância de hábitos e ideias, o que é e deveria ser educação e suas implicações em nossas vidas, o impacto de nossas relações e como os pecados as impactam também. Ainda sob tensão, esperando pela eficácia de uma vacina, é possível ver a soberania do Senhor e sua providência diária.

Portanto, durante 6[seis] meses vivendo no isolamento social, precisei, mais uma vez, enxergar a realidade por meio do Senhor, levando tudo a Deus em oração. Quanta paz perdemos e dor no coração temos , por não levar tudo ao Pai em oração.

Ao retornar lentamente  para o “presencial”, vi que nunca foi tão necessário uma verdadeira antropologia e perspectiva de nossa condição, o “caos” havia se instalado, simplesmente, por uma doença? – continuei pensando, há cento e oito dias em distanciamento.

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